60+: Mercado de trabalho é desafio a ser vencido para quem já passou dos 60

Empresas também precisam entender a importância de ter esse público em suas equipes

Por Mariana Corrér

Quase 13 milhões de pessoas estão desempregadas no Brasil. Isso significa que 12% da população economicamente ativa está desocupada. Entre os brasileiros idosos, acima dos 60 anos, essa taxa é de 3,4%.

Apesar de ser bem menor, o número engana, pois, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad) realizada trimestralmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o desalento é mais forte entre esse público, ou seja, muitos que se encontram nessa situação desistem de buscar emprego e, por vergonha, não se declaram desempregados, assim, não são detectados pela amostragem.

É esse cenário que abre essa reportagem da nossa série especial sobre o envelhecimento. A estimativa é que mais de dois milhões de pessoas entre 50 a 64 anos não estão trabalhando e nem se aposentaram. E falando em aposentadoria, a Reforma da Previdência, que deve ser aprovada em breve no Senado, muda bastante o panorama do mercado de trabalho para a terceira idade.

As idades mínimas agora são de 65 e 62 para homens e mulheres, respectivamente, para grande parte dos trabalhadores – salvo às exceções, como professores e trabalhadores rurais.

Isso insere mais pessoas no mercado e aumenta a média de idade entre os trabalhadores, criando ainda mais desafios para quem está em busca de empregos e para quem quer manter os seus.

Hoje, segundo o IBGE, mais da metade dos idosos ocupados trabalha por conta própria (46%) ou como empregador (8,8%). Vagas com carteira assinada estão disponíveis apenas para uma faixa de 15,7%, mas, com a reforma, é um segmento que só aumentará.

Isso exigirá uma política de incentivo à contratação deste público, a elaboração de políticas públicas que protejam o acesso ao trabalho e que tenham ações voltadas à promoção da saúde.

Mais do que isso, as empresas precisam se adaptar à nova realidade. O coordenador do MBA em Finanças da Inova Business School, Nelson Fernandes Junior, especialista no assunto, lembra que, antes de pensar nessa relação é preciso lembrar da realidade em um passado não tão distante.

O primeiro ponto é que a terceira idade, em sua concepção, era um momento de descanso, lazer e curtição, e começava a partir dos 50 anos. Dos 25 aos 50, a fase era de construção, enquanto a primeira fase, até os 25, era de aprendizado. Essas divisões já não fazem sentido no mundo atual.

Outro ponto de atenção é que, por lei, algumas empresas tinham a “expulsória”, quando os funcionários deveriam deixá-las aos 65 anos, e o mesmo acontecia com o Governo.

Depois dessa idade, quando alguém decidia continuar trabalhando, normalmente era com consultoria ou algo mais informal. Com todas as mudanças sociais, o desemprego, a reforma e a expectativa de vida que só aumenta, a terceira idade já não começa aos 50 anos, não há mais essa expulsória e a idade mínima de aposentadoria é de 65 anos para os homens.

“Hoje, as empresas precisam se adaptar a essa nova realidade, o RH está sofrendo mudanças também para atrair, motivar e reter esses funcionários”, diz Fernandes.

Muitas empresas já trabalham na atração, com programas próprios para o público 60+, mas ainda não é algo comum no país.

Uma pesquisa da empresa de recrutamento de cargos de média e alta gerência Robert Half mostra que 91% das empresas contratariam um profissional com 50 anos ou mais, e as áreas mais propensas a receber um funcionário com curso superior e nesta faixa etária são: administrativo (75%), gerência (70%), contabilidade (60%), jurídico (52%) e tecnologia (35%).

Por outro lado, 80% das empresas não possuem programas de contratação específicos para funcionários com mais de 50 anos. No entanto, as companhias que empregam esses colaboradores têm os mesmos perfis de áreas: administrativo (63%), gerência (67%), tecnologia (24%), jurídico (21%) e contabilidade (29%).

Para todas essas áreas, bem como para outros setores, há exigência de algumas habilidades e competências técnicas, porém, as empresas têm buscado cada vez mais por competências comportamentais. Nessas, o grupo 60+ leva vantagem. “E elas são ótimas para a troca entre colaboradores e gerações, ensinando os mais novos”, alerta o professor. “Muitas empresas ainda contratam talentos jovens para equipes boas em competências técnicas, sem valorizar os mais velhos, que possuem competências comportamentais mais desenvolvidas e que fazem falta, por isso é importante o RH avaliar bem essas diferenças”.

SEM DESISTIR

Dalmo José Pires Leite tem 80 anos e não foge dessa estatística. Ele trabalha com serviços externos e acompanhamento de processos de um escritório de Contabilidade de Indaiatuba.

Esse é seu quarto emprego. No primeiro, depois que saiu do Exército, trabalhou por 21 anos em uma importante multinacional de equipamentos pesados, onde foi crescendo e saiu com uma importante posição dentro da hierarquia, depois de ter viajado por vários países representando a empresa.

Saiu de lá para ficar mais 18 anos em um universo completamente diferente em uma empresa de cosméticos.

Foi depois desse desafio que resolveu pedir a aposentadoria e veio para Indaiatuba com a esposa. Mas não foi por isso que ele ficou parado. “Um amigo meu me fez o convite: ‘já que você não está fazendo nada...’, e me chamou para ajudá-lo em sua gráfica e acabei ficando no comercial da empresa por 9 anos”, lembra. Depois desse tempo, ele decidiu que, dessa vez, ia descansar com a esposa.

A pausa não durou muito tempo. Outro amigo veio com a mesma história: “já que você não está fazendo nada, não quer me ajudar?” E Dalmo foi para seu quarto emprego, no escritório onde está há 8 anos.

VÍCIOS SAUDÁVEIS

“Eu sou viciado em duas coisas: caminhada e trabalho”. Esses são os vícios, dignos de orgulho, que Dalmo assume. Os dois juntos são como uma terapia. Quando ele decidiu se aposentar, após o segundo emprego, ele foi até a Espanha para fazer o Caminho de Santiago de Compostela, quando caminhou mais de 800 quilômetros em 29 dias. O bom hábito, junto à alimentação saudável que adquiriu com sua esposa por quase 60 anos de casamento, o ajuda – e muito – no atual emprego.

Como responsável por serviços externos, Dalmo anda bastante durante o dia. “O escritório fica no Cidade Nova, mas vou de ônibus ou com aplicativos de transporte para vários lugares, e muitas vezes vou a pé para esses lugares”, comenta. “Vou para a Prefeitura, na Receita Federal, algumas vezes vou para São Paulo de ônibus, metrô etc.”, acrescenta.

CENÁRIO PERFEITO

Dalmo tem sua aposentadoria, mas gosta de trabalhar, faz questão de ter essa atividade e responsabilidades. “Além das atividades que tenho na igreja, isso que me ajuda a ocupar a mente, e que me ajudou a superar a perda da minha esposa”, revela. Sua mulher faleceu há quase 4 anos, mas Dalmo ainda demonstra muito amor e gratidão por todos os anos vividos em matrimônio.

Hoje, ele vive o cenário ideal para um trabalhador sênior. Tem o trabalho como uma renda extra, possibilidade de ocupar a cabeça, exercitar o cérebro e ter relações sociais. Tudo isso em meio período. “Quando eu fiz 80 anos, no começo deste ano, pedi para sair, mas o pessoal não me deixou, então combinamos de eu ir apenas meio período, dependendo da demanda”, diz.

O especialista, Nelson Fernandes Jr. Ressalta que essas condições são excelentes para essa geração. “Essa é uma das melhores maneiras de reter esse público, flexibilização de horários”, afirma. “É fundamental que as empresas se adaptem e que criem condições de integração, que as equipes sejam heterogêneas para haver troca”, prossegue o professor. “Antes, o mais velho ensinava o mais jovem; hoje, os mais velhos também aprendem, vivem um refresh no ambiente de trabalho”, completa Jr, lembrando que as empresas podem ter que integrar até quatro gerações nas mesmas equipes.

Por outro lado, mérito para Dalmo, que não parou de se reinventar, sempre teve contato com a tecnologia e não se assusta com novos aprendizados. “Quando o trabalhador vai envelhecendo, ele precisa se reinventar, ainda mais com as transformações cada vez mais rápidas no nosso mundo, então é preciso continuar aprendendo, evoluindo para se manter ou para voltar ao mercado”, explica Fernandes. “Aprender é a melhor habilidade que alguém pode ter”, conclui.